27 fevereiro 2019

Por quê Civilization não serve para entender como uma nação deve se comportar. (Parte 2)

(Você pode ler a Parte 1 clicando aqui.)

Talvez eu devia ter colocado a definição de nação na primeira parte, mas já que não teve, colocarei aqui. Para ser considerado uma nação, é preciso ter esses quatro elementos:

  1. População
       Acredito que esse o mais fácil de compreender, uma nação sem povo seria um lugar onde o governo governaria sobre ninguém.
  2. Território Definido
       Para que seja um país, é necessário que as pessoas tenham onde viver e trabalhar. No entanto, há exceções de nações em que o território não é 100% reconhecido como parte da nação, mas por ter uma grande parte de território que é considerado parte dela, são aceitos como nação pelos outros Estados.
  3. Governo
       É necessário que um Estado tenha um governo, independente do tipo (monarquia, republica, ditadura, etc) para que seja reconhecido como nação. Há discussões sobre se um Estado com governo anárquico seria considerado uma nação ou não, mas como não existe nenhum atualmente com essa forma de governo, a discussão fica sendo somente teórica.
  4. Soberania
       Um Estado precisa ter soberania para tomar suas proprias decisões e sua soberania deve ser reconhecida pelos outros Estados.
Tendo entendido isso, agora temos que falar sobre um dos princípios básicos das Relações Internacionais que é que as RI é um "teatro" com vários atores e que nenhum deles possui controle sobre todos os outros. Mesmo que surja uma potencia hegemônica, como acontece de tempos em tempos, ela não deve dominar o mundo, pois, caso ela domine, deixaria de ser "relações internacionais" e seria apenas um império ditando o que deve ou não ser feito.
O mundo das Relações Internacionais deve ser sempre anárquico.

Então, vamos continuar com os tipos de vitórias possíveis de se conseguir no Civilization VI:

Dominação


Como eu disse anteriormente: caso alguma país domine o resto, deixa-se de existir as relações internacionais. Então essa é uma vitória que vai totalmente contra os conceitos de RI.
Mas claro, qualquer país poderia decidir dominar os outros através do seu poder bélico e/ou de influencia. Vamos ver o que as diferentes vertentes dizem sobre isso.
Na Grécia Antiga, quando as cidade-estados eram independentes entre si, criaram a Liga de Delos, que era uma aliança entre diversas cidade-estados encabeçada por Atenas. Com isso, Atenas se tornou muito poderosa, o que fez com que as cidades da região que não participavam da Liga resolvessem se unir e formaram a Liga do Peloponeso, liderada por Esparta.
Após formar essa liga, os espartanos e seus aliados declararam guerra contra Atenas de forma a não permitir que o poder de Atenas crescesse tanto que poderia dominar toda a região.

Além da guerra do Peloponeso, existem outros exemplos na história da humanidade de alguma nação que ganha muito poder e isso faz com que os outros países mais fracos se unam contra essa nação em ascensão.
Segundo a lógica realista ou neorrealista, os estados fazem isso pois o primeiro objetivo de uma nação é proteger sua própria existência e, levando em conta o ambiente anárquico do sistema internacional, eles ficam inseguros em relação a nação em crescimento, que poderia ataca-los e anexa-los caso esse estado mais fraco não fizesse alianças para se proteger.
A partir disso, se torna um perigo para uma nação sair entrando em guerra e anexando território de outras nações pois, apesar de aumentar seu poder ser um dos objetivos de todo estado, o objetivo principal ainda é garantir sua própria sobrevivência. Correr o risco de entrar em guerra contra uma coalizão é colocar sua própria existência em risco, como aconteceu com a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

Sendo assim, um país pode tentar buscar uma dominação mundial, como o que é possivel no Civilization VI, mas não é recomendável pois envolve muitos riscos, principalmente quanto maior for o risco que você apresentar aos outros países. Mas no Civ6, se você começar a declarar guerras aos outros, você vai ficar com reputação ruim e aumenta bastante as chances de se unirem e declararem guerra contra você, o que se aproxima bem da teoria realista.

Vitória Cientifica



A vitória científica se dá quando você consegue lançar um satélite ao espaço, colocar o homem na Lua e estabelecer uma colônia em Marte (parece que mudou um pouco na ultima expansão mas como é recente e eu ainda não joguei, vamos considerar a do jogo base).
Obviamente, sabemos que no mundo real nenhum desse atos em si sinalizam uma vantagem em relação aos outros países, pois não foi a URSS colocar o Sputnik em orbita ou os EUA colocar o homem na Lua que decidiu o rumo da Guerra Fria. O mais importante dos dois casos foram as tecnologias desenvolvidas para que tal feitos pudessem ser alcançados ou as tecnologias que puderam ser usadas a partir de então, no caso dos satélites.
No entanto, para um jogo que tem um momento definido para terminar a partida, acho que é uma boa forma de definir que uma nação é mais avançada cientificamente.

Agora, o que uma nação ganha por ser avançada tecnologicamente?
Numa visão Neoliberal, o avanço tecnológico significa uma melhoria na produção, que por sua vez significa um aumento de poder econômico do país. Um país que cresce bastante economicamente pode se tornar um hegemon, adquirindo uma grande influencia sobre o resto do mundo, como os EUA ou mais recentemente a China. E, por tornar os outros dependentes dos produtos que você produz, seu país fica um pouco mais seguro em relação a guerras, afinal atacarem uma potencia do mercado mundial vai afetar o setor financeiro mundial e vai fazer os membros dos países atacantes perderem dinheiro.
No caso do Neorrealismo, a nação avançada tecnologicamente ganha mais poder relativo em relação aos outros. Esse poder pode ser por produzir mais riquezas ou por conseguir ter um poder bélico relativo cada vez maior. E o ganho de poder relativo, na visão do neorrealismo agressivo, o principal objetivo de uma nação é sempre ganhar mais poder relativo.

Então, a vitória científica não representa exatamente como uma nação pode crescer em poder e se tornar uma potencia mas tem uma certa base de como um estado pode ganhar poder no mundo real.

(Termino de discutir os tipos de vitória na parte 3...)

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